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Bailarinos e coreógrafos que dançam desenham e pintam

Inauguração 27 Fevereiro |  até 10 de Abril

Curadoria de Miguel Moreira

Live streaming com Tânia Carvalho às 16h na nossa página do Facebook.

NOTA: A exposição será aberta ao público assim que possível, apresentando-se on-line enquanto as regras do confinamento se mantiverem.

O meticuloso trabalho de um bailarino ao longo da sua carreira é notável. A sua organização diária, de cada passo da sua vida, na procura de um abismo que o levará a um espaço desconhecido em cena, leva-nos a pensar sobre a condição humana e os seus limites. O bailarino é o político dos nossos tempos. Em silêncio, na sua prática diária, em palco, dá-nos o exemplo de como um corpo a pensar sobre si muda consciências. Gosto de olhar bailarinos, de os perceber, e de seguir o seu exemplo de missão.

Nessa observação reparei que há muitos bailarinos e coreógrafos que desenham e pintam.

“Le dessin est la proibité de lárt”

Ingres

 

Desta exposição constam artistas que têm desenvolvido o seu trabalho como bailarinos e coreógrafos e no seu caminho têm tido o desenho e a pintura como espaço paralelo ou principal a esta atividade. O copo que se enche devagar de um líquido e que transborda para muitas possibilidades de diferentes linguagens. O legado de um artista como Almada Negreiros que transitou muitas vezes de linguagem não abdicando da liberdade da experiência como fonte primordial do trabalho de um artista.

A prática destes artistas no desenho começou muitas vezes ao mesmo tempo que a dança, quando eram ainda pequenos. Faz parte da aprendizagem e do crescimento como indivíduos, que tiveram. Muitas das vezes, a relação entre o conhecimento do seu corpo como fonte de expressão e o desenho foram feitos ao mesmo tempo. Tem esse sentido, também, de evasão do tempo. Um espaço detalhado em que o desenho como meditação é capaz de organizar novas fontes no nosso cérebro. Novas formas de ver.

“Nenhuma outra forma de pensamento chegou até nós mais próximo do seu aspeto primitivo do que o desenho”

Almada Negreiros

 

Notas pessoais sobre os artistas expostos

Carlota Lagido iniciou simultaneamente os seus processos (ainda criança) que iria marcar o seu percurso profissional como bailarina, coreógrafa, figurinista, artista plástica. Partilhou muito do seu tempo criativo com o coreógrafo Francisco Camacho onde desenvolveu uma cumplicidade singular. Esta presença em várias disciplinas foi-lhe natural e marcou a forma como aborda cada processo criativo. Os pássaros desta exposição são singulares. Parecem parte de um mundo que deixou de existir. São carregados de melancolia e ao mesmo tempo como “documentos” de uma natureza que não sabemos até quando iremos ver da mesma maneira. Parecem estar entre a ausência de vida e a possibilidade de novas outras exist~encias desconhecidas.

 

Flávio Rodrigues é um bailarino e coreógrafo que desenvolveu o seu trabalho entre a coreografia, feita sobretudo de solos. Peças em que nos mostra a sua relação irreal com o mundo. O desenho, os objetos e a pintura acompanharam-no deste muito cedo e com a influência dos pais no sentido de liberdade e de missão. No seu atelier vai desenvolvendo atmosferas várias em que o movimento está presente, como um ritmo que nos leva a pensar na vida como um todo. Os autorretratos com os seus desenhos divididos com a sua cara, mostra-nos a sua tensão entre o performer que ainda tem corpo e o desenho que faz o seu corpo desaparecer da realidade e partir uma nova dimensão da existência.

 

João Galante tem desenvolvido a sua obra na dança, na performance, no teatro com Ana Borralho. Tantas duplas de artistas que nos têm marcado entre a intimidade das suas relações humanas e a arte que criam para o público. Essa dimensão está presente nas obras expostas do João, a família é representada no ambiente fantástico entre o real e o irreal. O observador, o João, aparece representado como um animal que observa e é visto. As mãos tapam os olhos, indiciam-nos o aparecimento de muitas possibilidades de vidas diferentes. O corpo tem marcas do tempo e das dores do crescimento. João é um intérprete icónico de vários coreógrafos e encenadores. Foi uma figura primordial do projeto “Canibalismo Cósmico” e “Olho” no saudoso Espaço Ginjal.

 

Luís Guerra é um nome incontornável como bailarino na história da dança portuguesa. Desenvolve também o seu trabalho como coreógrafo e artista plástico. Cada vez mais está a desenvolver o seu espaço no desenho e na pintura. O espaço solitário que foi utilizando para desenvolver o seu trabalho é povoado por cores, lugares abstratos e animais. Aparecem como animais sagrados que merecem o nosso respeito e devoção. Este pensamento está também presente na forma como intervém civicamente defendendo determinados pensamentos totalitários em relação ao planeta. Nesta exposição estão presentes uma série de desenhos de diferentes anos, onde a utilização da cor como vetor de transe e meditação está presente.

 

Maria Fonseca é bailarina, coreógrafa e artista plástica. Desenvolveu o seu trabalho fora de Portugal, em Londres, onde também teve a sua formação em dança e Fine Arts. Como bailarina virtuosa que é, representa uma geração de novos bailarinos que se alimentaram de diferentes técnicas, algumas inexistentes há vinte anos, para se expressar de uma forma única. Como coreógrafa já denotamos o espaço onde se juntam todas as influências da dança e das artes plásticas juntas e as práticas de meditação e Trance Dance. Nesta exposição estarão o trabalho que desenvolve há vários anos de retratos de pessoas idosas, que também alimentou parte do imaginário como criadora e os últimos desenhos que fez com a experiência da gravidez e de ser mãe.

 

Tânia Carvalho é uma das mais destacadas coreógrafas portuguesas. Já se denota nas suas peças a sua transversalidade. Na imagem das suas peças habitadas por figuras entre o real e o irreal, quando toca piano, ou quando aparece como bailarina e performer em lugares de difícil definição. Os seus desenhos são também um corpo habitado de muitos pequenos corpos que parecem caminhar para um lugar. Como uma missão ou desígnio. Marcas da existência. Como se fosse possível um corpo de desmultiplicar em muitos outros corpos. Nesta exposição vai desenhar na parede um novo desenho, neste lugar entre a performance e o desenho onde tem habitado muitas vezes a sua obra. O tempo ligado à curiosidade que tem tido em experimentar novos lugares.

 

Yella artista singular que aborda nesta exposição a figura da bailarina que tem atravessado o seu trabalho como um ícone como reflexão e personificação. Figura que se sacrifica para possibilitar o aparecimento da beleza. Yella tem se expressado em diferentes formatos. Deste o cinema até à performance, à música, aos figurinos. Vários media que nos fazem ver uma figura que entra num mundo fantástico com ligação ainda ao que reconhecemos ser real. Tem desenvolvido nos últimos quinze anos uma trilogia que mostra a relação da artista com o tempo. Como afirmou na entrevista presente nesta exposição, uma reação ao trabalho de ilustradora durante oito anos onde fazia uma ilustração por dia para um jornal diário nacional.

 

Escolhas

A escolha de vários artistas que têm percorrido lugares singulares na dança portuguesa e ao mesmo tempo nas artes plásticas segue um pensamento de contágio entre pessoas que habitam o mesmo planeta que senti sempre enquanto habitei o Espaço Ginjal. Artistas que por habitarem o mesmo espaço lunar nos vão questionar acerca dos lugares das coisas. Associo á ideia de um copo que transborda. Estes artistas expressam-se em diferentes medias e formas de arte. Denota-se em todos uma inquietação e urgência de se expressarem artisticamente, que é também a forma preocupada que olham para planeta e o amor e dádiva que sentem pela sua vida.

 

Miguel Moreira

Fevereiro de 2021

 

 

 

 

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Ciclo expositivo de ilustração

 

Inauguração 27 Fevereiro |  até 10 de Abril

NOTA: A exposição será aberta ao público assim que possível, apresentando-se on-line enquanto as regras do confinamento se mantiverem.

 

OLHAR VOLTAR A OLHAR procura estabelecer uma relação entre as Sétima e Nona Artes, abrangendo ambos os públicos e enquadra-se na conhecida e natural contaminação entre estas duas artes.

4 autores de ilustração e banda desenhada selecionaram 4 filmes que os influenciaram e deixaram memória no seu imaginário artístico. A partir do filme cada autor produziu 32 pranchas a preto e branco, que deram origem à publicação de livros de bolso, editados pela Associação AO NORTE.

 

Exposição #1

ONE WEEK, de Isabel Baraona, a partir do filme homónimo de Buster Keaton (One Week, EUA, 1920, 19′)

 

Exposição #2

EU NÃO REINO, de Pedro Nora, inspirada no filme VAI E VEM, de João César Monteiro (POR, 2003, 179′)

 

Isabel Baraona – autora

Leciona na ESAD.CR desde 2003 no curso de Artes Plásticas. É Licenciada em Pintura pela La Cambre (Bélgica) e Doutorada em Artes Visuais e Intermedia pela Universidade Politécnica de Valência (Espanha). Em 2013, no âmbito de um pós-doutoramento, foi bolseira da Universidade Rennes 2 (França) onde desenvolveu Tipo.pt, um arquivo online sobre livros de artista e edição de autor em Portugal; sendo, a par com Catarina Figueiredo Cardoso, coeditora de Portuguese Small Press Yearbook.

Tem realizado, desde 2001, diversas exposições individuais e coletivas, em Portugal e no estrangeiro.

 

Pedro Nora – autor

[n. 1977, Vila Nova de Gaia]

Licenciado em Design de Comunicação – arte gráfica, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Foi co-editor, em parceria com Isabel Carvalho, do fanzine “ALíngua” (1999-2001) e da revista “Satélite Internacional” (2002-2005). Como autor de banda desenhada participou em várias publicações colectivas nacionais e internacionais, entre 2000 e 2005. De destacar “Lisboa 24h” (Lx Comics n. 6, Bedeteca, 2000), “Quadrado”, “Strapazin”, “Black” e “Nëlio”. É autor dos livros “Mr. Burroughs”, com argumento de David Soares (versão portuguesa pela Círculo de Abuso, 2000 e versão francesa pela Frémok, 2004), “Metamorfose”, a partir da obra de Franz Kafka (Íman edições, 2001), “Chapéus e Sombras” (MaisBD/Mundo Fantasma, 2003), “Anita O’Day” e “Woody Allen”, ambos com argumento de João Paulo Cotrim (Éditions Nocturne/Corda Seca, 2005).

 

 

Apoios: Município de Guimarães e Associação AO NORTE